"Ciência feita no território: pesquisadores brasileiros e peruanos se unem para monitorar a saúde dos nossos rios e enfrentar o desafio global da poluição plástica.
Às vezes a ciência começa longe do laboratório. Começa caminhando à beira de um rio, enchendo garrafas de água, coletando sedimentos e coletando peixes que fazem parte da vida cotidiana de muitas comunidades. Assim começou esta história, na bacia do rio Utcubamba, no norte do Peru. Utcubamba é um rio que percorre aproximadamente 502 km, descendo desde a cordilheira andina, a 3.800 m s. n. m., até zonas abaixo dos 500 m s. n. m. Forma parte do sistema hidrográfico da Amazônia e aporta suas águas como tributário da bacia do rio Amazonas, conectando ao longo de seu percurso ecossistemas, climas, comunidades e diferentes formas de vida.

Neste cenário se uniram Damaris Leiva Tafur, estudante de doutorado, junto a um grupo de jovens de Engenharia Ambiental (Cristian Hurtado Burga, Deisy Chavez Iliquine Leticia Llaja Hidalgo) e um morador local (Cristian Comeca Ramos), conhecedor do entorno. Todos compartilhavam uma mesma motivação: desvendar os segredos deum rio que muitas vezes nos adverte em silêncio sobre os impactos que recebe.

Durante um ano de trabalho, a equipe percorreu o rio e seus tributários, coletando amostras de água, sedimentos e peixes. Após o trabalho de campo, essas amostras processadas foram trasladadas do Peru até o Brasil, seguindo protocolos de conservação e rastreabilidade. A viagem destas amostras que cruzou fronteiras não só foi um desafio logístico, mas foi um passo chave para responder perguntas que requerem ferramentas especializadas e trabalho científico colaborativo.
Atualmente, a análise destas amostras se realiza em colaboração com a equipe do SensNexus, utilizando Microscopia de Fluorescência (MF) para a identificação de microplásticos. Esta técnica permite detectar e caracterizar partículas que nem sempre são visíveis com métodos convencionais, diferenciando fibras, fragmento se outros tipos de microplásticos presentes nas distintas matrizes ambientais.
A investigação vem sendo desenvolvida de maneira conjunta, combinando experiência, discussão científica e validação constante dos resultados. Cada partícula observada sob o microscópio representa uma evidência concreta de que a contaminação plástica alcançou inclusive rios alto-andinos que costumamos considerar pouco intervencionados.
O estudo se fortalece mediante uma colaboração científica internacional entre a equipe do SensNexus na Universidade Federal de Santa Catarina (Brasil), onde se realizam as análises especializadas, e a Universidad Nacional Toribio Rodríguez de Mendoza (Peru), instituição de origem do projeto, no âmbito do Doutorado em Ciências para o Desenvolvimento Sustentável, financiado pelo PROCIENCIA. Este trabalho conjunto permite integrar olhares, experiências e ferramentas entre Peru e Brasil para compreender melhor um problema ambiental que não conhece fronteiras.
A contribuição deste trabalho vai além dos resultados pontuais. Aporta dados inéditos sobre rios alto-andinos do Peru, impulsiona a cooperação científica entre Peru e Brasil e ajuda a visibilizar um problema ambiental que muitas vezes passa despercebido. Gerar ciência a partir do território, com colaboração internacional e enfoque ambiental, é também uma forma concreta de cuidar de nossos rios e repensar nossa relação com eles.