Antes que qualquer tecnologia possa ser aplicada em campo, ela precisa ser testada com cuidado em condições controladas. É assim na medicina, na engenharia e também no sensoriamento do solo
No Projeto SensNexus, o caminho para detectar microplásticos em solos costeiros com espectroscopia começa, necessariamente, pelo laboratório e pelo menor detalhe possível.
Os primeiros experimentos foram realizados com amostras dispostas em placas de Petri, posicionadas sobre uma plataforma giratória. A rotação garante que o sensor registre a superfície da amostra por ângulos variados, gerando leituras mais representativas. O espectrorradiômetro capta a reflectância da mistura de solo e microplásticos em centenas de comprimentos de onda ao mesmo tempo, do visível ao infravermelho de ondas curtas, construindo uma "assinatura espectral" única para cada combinação de material.

Mas para que a luz "aprenda" a reconhecer o plástico, é preciso que ele seja conhecido com precisão. Por isso, o SensNexus trabalha com microplásticos prístinos, partículas puras, direto da indústria, sem corantes, pigmentos ou aditivos. Esses materiais garantem que os modelos de inteligência artificial sejam treinados com os espectros reais dos polímeros, sem interferências de substâncias secundárias. Em paralelo, são utilizados materiais plásticos coloridos de uso doméstico comum, como embalagens e utensílios, com os mesmos polímeros dos materiais prístinos, para verificar se os algoritmos conseguem reconhecer o plástico mesmo em condições mais próximas da contaminação real. Essa combinação testa tanto a sensibilidade quanto a generalização dos modelos.
O mesmo cuidado se aplica ao solo. As amostras utilizadas são coletadas em zonas costeiras representativas, em profundidade, de forma criteriosa e documentada. O objetivo é garantir que todo o plástico presente nos experimentos seja de origem conhecida e em quantidade precisamente medida, impedindo que qualquer partícula não contabilizada interfira na integridade dos dados.

E aqui está um dos maiores desafios práticos da pesquisa: os plásticos estão em toda parte. Nos frascos, nas bancadas, nas roupas sintéticas dos pesquisadores, no ar do laboratório. Para evitar contaminação não intencional, o SensNexus adota protocolos rigorosos de controle de qualidade: uso exclusivo de vidrarias e utensílios de alumínio, higienização constante dos equipamentos, e vestes de algodão durante os procedimentos, uma escolha deliberada para excluir fibras sintéticas do ambiente de trabalho. São esforços que podem parecer excessivos, mas que se tornam absolutamente necessários quando se considera o quanto o plástico já está presente em nosso cotidiano.
Construir experimentos limpos e controlados é, em si, uma forma de fazer ciência com seriedade. É o alicerce sobre o qual tudo o mais será edificado.